Sergio Mendes faz vibrante passeio musical no Rio pelo 'Brazil' de 1966
12/09/2017 - 11h17 em Novidades

Aos 76 anos, 53 deles vividos em Los Angeles (EUA), o pianista e compositor fluminense Sergio Mendes estaria há 39 anos sem fazer show solo no Rio de Janeiro (RJ), cidade vizinha da Niterói natal, não fosse apresentação do artista na edição de 2015 do festival Rock in Rio. Por isso mesmo, o público que assistiu a uma das quatro sessões do vibrante show feito por Mendes no recém-inaugurado Blue Note Rio no último fim de semana, 9 e 10 de setembro, certamente se surpreendeu positivamente com a musicalidade viva e ainda exuberante do pianista.

De 1978 (ano da penúltima apresentação solo do artista em palcos cariocas) a 2017, Mendes emplacou sucesso mundial em 1983 – a balada Never gonna let you go (Barry Mann e Cynthia Well), um dos pontos altos do show na sessão das 20h de ontem, por conta da bossa inserida no refrão e sobretudo por conta da voz em forma de Joe Pizzulo, solista da gravação original do álbum Sergio Mendes (1983) – e, em 2006, se uniu ao rapper will.i.am para reprocessar músicas que gravara há 40 anos com o conjunto Brazil'66 no álbum (de 1966, claro) que deu projeção mundial a Mendes.

Não por acaso, a música de maior relevância desse disco, Mas que nada (Jorge Ben Jor, 1963), encerrou o show na versão repaginada com will.i.am, cabendo a H20 fazer a parte em rap que era do artista do grupo Black Eyed Peas no hit de Jorge Ben e em músicas como Água de beber (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961), número inspirado na gravação do afro-samba no álbum Encanto (2008), o segundo feito com will.i.am.

 

Ao saudar o público do Blue Note Rio no início do show, Mendes caracterizou o roteiro como um "passeio musical" por obra iniciada há muitos anos atrás quando o artista pegava a barca, em Niterói, para desembarcar no Rio e rumar para o Bottle's bar, uma das boates cariocas em que já germinava o samba-jazz da década de 1960.

A rigor, essa obra foi pautada pelo suingue da música brasileira derivada da Bossa Nova. Mendes soube cair nesse suingue com levadas que traduziram o samba e o balanço do Brasil para o idioma dos gringos. Foi esse suingue – perceptível tanto no toque do piano de Mendes como na performance dos músicos da banda que integra instrumentistas norte-americanos, mas que é dominada por brasileiros como o baixista André de Santana, o percussionista Gibi, o guitarrista Kleber Jorge e o baterista Léo Costa – que fez com o que "passeio musical" de Mendes soasse quase sempre agradável.

Músicas como Upa neguinho (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, 1965) e Roda (Gilberto Gil e João Augusto, 1965), sucessos da então nascente MPB surgida na era dos festivais, foram tocadas em arranjos vibrantes. Um dos primeiro afro-sambas, Berimbau (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963) também ressurgiu de forma luminosa no show.

 

Vocalista e musa de Mendes desde os anos 1960, Gracinha Leporace segue no tom do artista, tendo brilhado no show ao interpretar músicas como O cantador (Dori Caymmi e Nelson Motta, 1966). Quando arrisca registros vocais mais intensos, como em O que será (Chico Buarque, 1976), o brilho é um pouco menor, mas nada que tire o mérito da boa cantora.

Valorizada pela excelente acústica do Blue Note Rio, a total interação entre Mendes, os músicos e as vocalistas fez com que números como Sou eu (Moacir Santos e Nei Lopes, 2001) – pretexto para saudação ao maestro pernambucano Moacir Santos (1926 – 2006), com quem Mendes teve aula na adolescência – criassem atmosfera de encantamento no palco da mais nova casa de shows do Rio.

Mesmo números de menor apelo rítmico, caso de Goin' out of my head (Teddy Randazzo e Bobby Weinstein, 1964), mantiveram o show nos trilhos sonoros de Mendes, compositor de So many stars (Sérgio Mendes, Alan Bergman, Marilyn Bergman, 1968), música lançada pelo autor em outro bem-sucedido álbum com o Brazil '66, Look around (1968), e revivida no show com orgulhosas alusões ao fato de a balada ter sido gravada por cantores norte-americanos como Barbra Streisand e Tony Bennett.

Enfim, Sergio Mendes superou expectativas ao retornar aos palcos cariocas no Brasil de 2017. O passeio musical mostrou a bossa de um artista que soube se apropriar do suingue da música brasileira da década de 1960. Em que pesem as conexões com will.i.am e o universo do hip hop, feitas a partir do revigorante álbum Timeless (2006), o Brasil de Sergio Mendes ainda é essencialmente o de 1966. (Cotação: * * * *)

 

(Créditos das imagens: Sergio Mendes no palco do Blue Note Rio em fotos de Mauro Ferreira)

 

Fonte/Reprodução: G1

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